Crônica - A Herança Maldita - Por Archimedes Marques

21/01/2022 09:11


Crônica - A Herança Maldita - Por Archimedes Marques
A HERANÇA BANGUELA
Por Archimedes Marques
 
De uma comunidade paupérrima do município de Barra dos Coqueiros no final dos anos 80, época em que por dois anos estive como Delegado Titular da Delegacia de Polícia local, então apareceu um fato policial inusitado, cômico, e até certo ponto comprovante do que vem a ser a ignorância total e a pobreza absoluta vivida pelo ser humano dentro de um país rico como é o Brasil.
 
Distante alguns quilômetros da cidade sede daquele município, mais de perto às margens do rio Japaratuba que faz divisa com o vizinho município de Pirambu localiza-se uma pequena faixa de terra que era então conhecida por Ilha do Rato onde na época existiam várias casas de taipa, madeira e palhas de coqueiros, construídas à beira do rio ou em meio ao manguezal ali existente.
 
Ali naquele pedaço de terra em que lutavam o homem com o caranguejo por um melhor espaço, uma senhora havia falecido de morte natural e então os seus três filhos, demais familiares e outros moradores da Ilha do Rato, trouxeram o corpo em cortejo fúnebre acompanhado por várias carroças para que fosse enterrado no cemitério da cidade sede do município.
 
Entretanto, no trajeto descobriram que a defunta estava sem a dentadura superior. Furtaram a dentadura da falecida… E então uma irmã acusou a outra pelo suposto crime praticado contra a sua mãe, ou melhor, contra o cadáver da sua mãe.
 
Depois do verdadeiro “barraco” em que as duas irmãs praticaram agressões físicas e morais mutuamente em público já na cidade, o caso foi levado por populares para resolução da Polícia e enquanto isso a defunta “aguardava desorientada” a minha decisão para a estranha contenda na porta do cemitério ao relento no sol escaldante dentro de um caixão de quinta categoria quase já despregando.
 
– Foi ela doutor… Foi essa cachorra que roubou a dentadura da minha mãe… Ninguém tinha notado isso porque a minha mãe estava com a boca fechada, mas com o balanço da carroça a boca dela se abriu e então eu vi que ela estava sem a dentadura… Só pode ter sido ela… Eu notei que quando a gente saiu de casa a minha mãe estava com a dentadura e foi ela quem veio também na mesma carroça… Essa miserável também não ficou satisfeita com a divisão da herança e por isso ela roubou a dentadura que minha mãe ganhou na eleição passada…
 
Lembrei-me da história que o povo contava que certo candidato em campanha política chegava aos povoados daquele município com uma bacia cheia de dentaduras e as pessoas desdentadas saiam experimentando uma por uma para ver a que melhor lhe servia… E então para acalmar os animus acirrados das duas irmãs, puxei conversa e perguntei curioso sobre a tal herança deixada pela finada:
 
– A gente dividiu tudo direitinho, as galinhas, as roupas, as panelas, o radinho de pilha, o candeeiro a gás, os perfumes, a rede de dormir e de pescar, os jererés para pegar siris... mas aí ela queria mais e terminou roubando a dentadura da minha mãe…
– Sim, mas pra que é que ela ia querer a dentadura da sua mãe?…
– Num tá vendo não doutor que ela também é banguela?… Arrancou os dentes dia desses que já estavam todos podres…
– Você está querendo me dizer que ela furtou a dentadura da sua mãe para uso próprio?…
– Só pode ser doutor… Essa miserável é capaz de tudo… É uma unha-de-fome e só quer levar vantagem em tudo…
E então depois da acusação dei a palavra para a “defesa’, falando para confundir a cabeça da suspeita:
– Bom, agora chegou a hora de você falar… Se for verdade a acusação da sua irmã você negue e se for mentira você diga que é verdade…
– É mentira dela doutor, eu não roubei nada não… Ela está inventando tudo isso para que o senhor me prenda e ela fique com a herança só pra ela…
– Está vendo que você é culpada?… Se eu mandar revista-la você vai ser desmascarada, mas vamos fazer o seguinte para resolver o problema agora mesmo: Eu dou a minha palavra que não vou mandar prende-la, mas quero que você seja sincera e fale somente a verdade que é para a gente tentar fazer um acordo e terminar esse caso da melhor maneira possível… Você devolve a dentadura para a boca da sua mãe e eu prometo também que vou pedir ao Prefeito da cidade uma dentadura novinha para você…
 
Ela pensou um pouco, olhou sério nos meus olhos e decidiu pelo melhor:
– Promete mesmo Doutor?…
– Palavra de Delegado!…
– Fui eu mesma quem tirou a dentadura dela doutor… Ela não ia precisar mais mesmo… Eu ia lavar bem lavada com água sanitária e bombril e experimentar pra ver se dava em minha boca e dizer pra todos que tinha ganhado de um político… Mas aí o senhor que é um homem bom já me prometeu uma nova e então vou colocar a dentadura de volta na boca dela que é pra ela ficar mais bonita quando for se apresentar a São Pedro lá no Céu…
 
De imediato levantou o vestido e tirou de dentro da calcinha uma nojenta e encardida dentadura. Naquele momento dei uma gargalhada, daí telefonei para o Prefeito, meu amigo, que concordou em mandar fazer uma dentadura para a pobre coitada, e então finalizei o caso aconselhando:
 
– Esqueçam o que aconteceu, pois, o caso já está resolvido. Não quero mais briga. Vocês duas são irmãs e devem permanecer unidas. Reúnam o pessoal que está aí fora e vá todo mundo logo para o cemitério enterrar a mãe de vocês que já deve estar “torrada” nesse sol quente.
 
Archimedes Marques
Delegado de Polícia
 
 
 
 
 

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